População e Saúde

Uma das orientações de investigação mais fascinantes em Demografia Histórica é a que se prende com a análise do fenómeno da Mortalidade, quer se trate de mortalidade de crise, quer se trate da mortalidade dita "normal". Embora com as deficiências conhecidas, para algumas dioceses do país, de sub-registo ou não registo até épocas tardias (1860, por vezes), das crianças não obrigadas a preceitos quaresmais, os registos paroquiais, como fontes para o estudo de mortalidade, constituem um manancial de informação só muito pontualmente explorado.

Estamos convictos de que os finais do século XVI constituiu para grandes zonas do país um particular momento de declive populacional, dadas as afeções trazidas pelas fomes e pestes que se sucederam, a comprometer a renovação das gerações, como claramente indiciam os trabalhos desenvolvidos sobre Trás-os-Montes. Difundindo-se, em regra, os registos paroquiais na segunda metade desse século, importa recolher a informação disponível, para avaliar, no contexto nacional, o impacto de tais crises. As zonas de povoamento disperso terão resistido melhor a esses flagelos, como parece depreender-se dos trabalhos sobre o Minho. A investigação no âmbito desta Linha Temática está atenta ao aparecimento de pestes, de epidemias de tifo, varíola, cólera, febre-amarela, gripe ou outras, analisando a forma como terão afetado as populações: as comunidades mais isoladas conseguiram defender-se dos contágios até épocas tardias, como parece depreender-se, no caso da varíola, dos estudos sobre a ilha açoriana do Pico.

Se o estudo das crises de mortalidade decorre da própria contagem do número de falecidos em determinado momento, comparativamente ao comportamento em anos anteriores e posteriores, a abordagem dos indicadores clássicas de mortalidade, a mortalidade infantil ou a esperança de vida em todas as idades, reveste-se de grandes dificuldades em Demografia Histórica. Só a reconstituição da comunidade, por cruzamento da informação paroquial, beneficiando do registo sistemático de todos os falecidos e dominando a variável Mobilidade, poderemos abordar de forma direta, em período pré-censitário, a esperança de vida à nascença. Isso já foi feito para comunidades da ilha do Pico e, por aproximação, para Guimarães, mas as sondagens desenvolvidas sobre outras zonas do país fazem crer a possibilidade de sucesso alargado para esse trabalho. Convencionou-se, através de escassos exemplos, que a mortalidade infantil em período de Antigo Regime teria andado à volta dos 300 óbitos no primeiro ano de vida por mil nascidos, ou que a esperança de vida à nascença se colocaria muito aquém dos 40 anos. No entanto, os trabalhos sobre o Minho ou as ilhas açorianas apresentam valores bem mais favoráveis.

São muitas as questões em aberto, questões gerais, a que o trabalho de reconstituição de comunidades históricas poderá vir a responder.

A investigação levada a cabo no âmbito desta Linha Temática levará a cabo uma avaliação - utilizando um "campo" de ensaio campo de ensaio (em condições correntes, de 15 ou mais gerações), dos efeitos de uma multiplicidade de variáveis sobre a sobrevivência. Os resultados já alcançados são encorajadores: a notável sobrevivência registada na ilha do Pico, tanto de crianças como de velhos entre o século XVIII e o XX, poderá resultar de um clima ameno durante todo o ano, de uma alimentação diversificada e frugal (com o milho como cereal básico, inhames, algum leite, algum vinho, fruta, peixe e marisco e pouca carne, utilizando-se água das chuvas ou poços de maré), de hábitos de andar a pé, a que o terreno obrigava, e a uma cultura que protegia as mulher-mãe, as crianças pequenas e os velhos ou até pela fuga a casamentos consanguíneos. Importa desenvolver análises comparativas, por equipas transdisciplinares, em contextos ambientais, sociais ou culturais diferenciados. O estudo de doenças geneticamente transmissíveis virá a beneficiar do projeto de formação de uma base de dados central, sucessivamente alargada ao país, um Repositório Genealógico.